A Biblioteca do Seu Severino: Aposentado cria espaço de leitura para comunidade da zona oeste de Marília
Dá pra reconhecer de longe. Sentado no banco de madeira que ele mesmo fez, Seu Severino traja seu característico chapéu verde. Chego, me apresento e sou recebida com um aperto de mão caloroso. “Ô minha filha, senta aqui”, diz.

Sentamos juntos, ao lado de uma casinha simpática, cor-de-rosa, com o telhado roxo. Nela, os dizeres “Biblioteca Comunitária” me chamam a atenção.
“Vish, isso daí foi uma ideia que eu tive. Mas a casinha ficou feia que só, tá muito mal construída”, conta Seu Severino.
A praça, que fica no Jardim Cavallari, é bem em frente a uma escola. E logo começam a chegar crianças, adultos e vizinhos. Todos eles se sentam nas mesinhas feitas por Severino.
Do Nordeste pra cá
Não demora e ele começa a contar sua história. Nordestino de nascença, Severino se mudou para São Paulo quando ainda era criança. Lá, viveu sua infância trabalhando na lavoura com a família.
“Como eu tinha alguns parentes que moravam aqui em Marília, vinha visitar a cidade com frequência. E aí, há dois anos, me mudei pra cá”, conta.

E, desde então, o aposentado ganhou um novo xodó: a praça. Ele, junto de outros moradores da comunidade, fazem um trabalho voluntário de preservação do local. Orgulhoso, decidiu me mostrar tudo com um “tour” personalizado.
“Os outros voluntários plantaram todas essas mudinhas. E aí eu venho todo dia pra ‘aguar’. Construímos os banquinhos, pro pessoal poder sentar pra conversar, né”, explica.

Em uma das árvores, um aviso que chama a atenção. Escrito em vermelho, pede para que os donos recolham a sujeira feita pelos bichinhos. E o melhor: Severino ainda colocou várias sacolinhas para ajudar quem não saiu preparado de casa.
“Eu amo os bichinhos. Mas, os donos precisam ter mais consciência porque aqui vem criança pequena e também porque não podemos sujar a praça desse jeito né. Escrevi de vermelho que é pra chamar bastante atenção”, conta o aposentado.

Um caso de amor
Além da praça, o coração de Severino abre espacinho para um outro amor: os livros. Logo que toco no assunto, já se apressa a mostrar as caixas de livros que carrega na Kombi.
“Não entendo dessas tecnologias novas aí, – e aponta para o celular que está no meu colo – gosto mesmo é de livro, que dá pra folhear, cheirar e sentir. Tenho caixas cheias deles lá dentro da Kombi, carrego para todo lugar”, conta.
E foi desse amor que surgiu a ideia. Quando pergunto sobre a simpática casinha, ele logo se apronta para explicar como a construiu. “Não tá muito boa, mas eu que montei tudo”, afirma orgulhoso.

Pedaços de madeira que sobram nas construções, canos de PVC e muito amor deram vida à Biblioteca Comunitária, ou, Biblioteca do Seu Severino, como prefiro chamar.
Na frente, “zele e cuide, é de todos”. Dentro, tudo organizado e separado por, pasmem, categorias! Tem livro de adulto, criança, livro didático, livro religioso, livro pra tudo e pra todos.
“O pessoal doa bastante pra mim, por isso que já tem esse tantão. Mas é só vir aqui, pegar, sentar e ler. Só não pode esquecer de devolver depois, né [risos]”, explica.
Mas, e a noite? Pergunto. E é aí que Severino releva seu lado mais precioso: o lado que confia nas pessoas, independentemente.
“Eu quero conscientizar as pessoas. Você não pega o que não é seu, certo? Então não tem porque pegarem esses livros. Eles tão aqui pra todo mundo, quero que todos possam ler”, diz.

Como uma corrente
Seu Severino já era conhecido no bairro. Agora, depois da “inauguração” da sua Biblioteca Comunitária, já até recebeu convites para reproduzir a ideia em outros locais da cidade.
“Já me pediram pra montar em condomínio, em outros lugares da cidade. Mas, primeiro, quero deixar essa daqui mais bonitinha. E também, meu desejo é que outras pessoas comecem a fazer o mesmo também. Cuidar das nossas praças e valorizar os nossos livros”, explica.
E é com essa inspiração que me despeço de Seu Severino. Mas, com uma promessa de voltar para vê-lo e acompanhar a evolução de sua biblioteca. De uma amante de livros para outro, que Severino possa continuar espalhando histórias e criando a própria história.
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